16/08/2011
Blog em Manutenção - Moderador Idem
Em breve novas postagens estarão disponíveis. Agradeço pela paciência dos leitores.
12/07/2011
RUINARIA
O escritor Victor Hugo de Araújo Barbosa, a levar consigo, quiçá presa à orelha, a sua pena cada vez mais afiada, está de casa nova. É o blog Ruinaria, que se abre às visitas dos caros leitores, e de cara nos brinda com a excelente prosa Pedra Fundamental, bem como o conto, que me lembrou a desenvoltura de Aldous Huxley e a engenhosidade de Thomas Pynchon, intitulado Memórias de Fungo. E deixo claro, para o bem geral da sanidade, que a citação dos respectivos autores inglês e estadunidense nada tem a ver com aquelas equiparações sem propósito que a ausente crítica literária moderna, os críticos musicais aloprados de plantão, e por aí vai, estão acostumados a fazer. E, sim, humilde lembrança sem eira nem beira.
Já tornei notória aos fortuitos e queridos visitantes desse sítio, a minha boa opinião sobre a literatura que escorre, como se fora fácil, dos dedos do Victor. A atualidade dos seus textos, diria visceral, a sua honestidade e precisão, resultam em “experimentos” generosos, e arrebatadores.
Não me referiria ao Victor usando a expressão “escritor promissor”, pois não o vejo como um "escritor de futuro", e sim, desde já, um dos maiores “entalhadores das palavras” não apenas de sua geração. E não me importa o fato de que ele ainda não tenha publicado livros. Eles surgirão na mesma velocidade em que a progressiva e vertiginosa maturidade desse escritor destila a olhos nus uma trilha muito bem delineada e factual.
“Rasgação de seda” esse post, como se diz? Mas não se vê muito disso por aqui, não é mesmo? Trata-se tão somente da humilde opinião – assim como a lembrança – de quem se orgulha não de sua pobre escrita, mas da “sorte” de ter conhecido pessoas notáveis, sobretudo por seus gênios. É o que vale!
Já tornei notória aos fortuitos e queridos visitantes desse sítio, a minha boa opinião sobre a literatura que escorre, como se fora fácil, dos dedos do Victor. A atualidade dos seus textos, diria visceral, a sua honestidade e precisão, resultam em “experimentos” generosos, e arrebatadores.
Não me referiria ao Victor usando a expressão “escritor promissor”, pois não o vejo como um "escritor de futuro", e sim, desde já, um dos maiores “entalhadores das palavras” não apenas de sua geração. E não me importa o fato de que ele ainda não tenha publicado livros. Eles surgirão na mesma velocidade em que a progressiva e vertiginosa maturidade desse escritor destila a olhos nus uma trilha muito bem delineada e factual.
“Rasgação de seda” esse post, como se diz? Mas não se vê muito disso por aqui, não é mesmo? Trata-se tão somente da humilde opinião – assim como a lembrança – de quem se orgulha não de sua pobre escrita, mas da “sorte” de ter conhecido pessoas notáveis, sobretudo por seus gênios. É o que vale!
Por sua vez, os textos do Victor, merecem muito mais do que o meu infrutífero “bravo!”.
11/04/2011
Redescobrindo III
[...]
A formação de hipóteses é a fase mais misteriosa do método científico. De onde elas vêm, ninguém sabe. A pessoa está sentada num lugar qualquer, pensando na vida, e de repente – zás! – passa a entender uma coisa que não entendia antes. Até ser testada, a hipótese não é verdadeira, mas ela não provém de experiências. Origina-se em outro lugar. Disse Einstein:
“O homem tenta elaborar para si mesmo, do modo que melhor lhe pareça, uma descrição simplificada e inteligível do mundo. Depois, tenta até certo ponto substituir o mundo da experiência por esse universo por ele construído, para poder dominar toda a natureza... Ele faz desse universo e da sua construção o centro de sua vida emocional, para encontrar, assim, a paz e a serenidade que não consegue dentro dos limites a ele impostos pelo turbilhão da experiência pessoal. O objetivo último a ser atingido é chegar àquelas leis elementares universais a partir das quais o universo foi construído através de pura dedução. Não há um caminho lógico que conduza até essas leis; apenas a intuição, baseada no conhecimento afetivo da experiência, pode conduzir a elas...”
Intuição? Afetividade? Palavras estranhas para descrever a origem do conhecimento científico.
Alguém que fosse menos cientista que Einstein teria dito: “Mas o conhecimento científico vem da natureza. É a natureza que fornece as hipóteses.” Einstein, porém, sabia que não é assim. A natureza só fornece dados experimentais. [...]
O rompimento de Fedro com o sistema lógico ocorreu quando, em consequência de algumas experiências de laboratório, ele se interessou pelas hipóteses como entidades em si mesmas. Ele já havia percebido várias vezes, no seu trabalho de laboratório, que o que poderia parecer a parte mais difícil do trabalho científico, a criação das hipóteses, era sempre a mais fácil. O simples ato de anotar formalmente tudo, com a maior precisão e clareza possíveis, já parecia sugerir as hipóteses. [...]
No começo, ele achava aquilo divertido. Inventou até uma lei gozadora, no estilo das Leis de Parkinson, segundo a qual “o número de hipóteses racionais que podem explicar qualquer fenômeno dado é infinito”. (...) Foi só meses após ter criado essa lei que ele começou a ter algumas dúvidas sobre a graça ou utilidade que ela teria.
Se fosse verdadeira, a lei não detectaria uma simples escorregadela do raciocínio científico. Seria completamente niilista, uma catastrófica refutação lógica da validade geral de todo o método científico!
Se o propósito do método científico é selecionar uma dentre inúmeras hipóteses, e se o número de hipóteses cresce tão rápido que o método científico não pode controlá-las, fica claro que nunca se poderão testar todas as hipóteses; os resultado de qualquer experiência serão, portanto, incompletos, e o método científico inteiro deixa de alcançar o objetivo de estabelecer um saber comprovado.
Einstein comentou, a respeito, que “a evolução mostrou que a qualquer momento há sempre uma hipótese que se destaca, por ser nitidamente superior às outras”, e ficou por aí. Mas para Fedro, tal resposta não era ainda satisfatória. A frase “a qualquer momento” causou-lhe profundo impacto. Será que Einstein acreditava que a verdade era uma função do tempo? Afirmar isso seria o mesmo que arrasar o pressuposto mais básico de toda a ciência.
E, no entanto, isto se observa em toda a história da ciência, que é nitidamente uma sucessão de explicações sempre novas e mutáveis sobre os mesmos velhos fatos. (...) quanto mais hipóteses, menor o tempo de vida da verdade. E o que parece estar fazendo com que cresça o número de hipóteses nas últimas décadas é nada mais nada menos que o próprio método científico. Quanto mais se olha, mais se vê. Ao invés de selecionar uma verdade dentre uma quantidade de hipóteses, aumenta-se essa quantidade. Logicamente, isso significa que, ao se tentar alcançar a verdade imutável através da aplicação do método científico, não se realiza qualquer progresso. Pelo contrário, passamos a distanciar-nos dessa verdade!
Aquilo que Fedro observou a nível pessoal era um fenômeno bastante característico da história da ciência, omitido durante anos. Os resultados previstos da pesquisa científica e os resultados reais estão diametralmente opostos neste ponto, e ninguém parece prestar muita atenção a este fato. O objetivo do método científico é selecionar uma dada verdade dentre muitas verdades hipotéticas. A ciência consiste essencialmente nisso. Historicamente, porém, a ciência faz exatamente o contrário: através de um acúmulo descomunal de fatos, dados, teorias e hipóteses, é ela mesma quem está levando a humanidade das verdades únicas e absolutas para as verdades múltiplas e relativas. O principal gerador do caos social, da indecisão do pensamento e valores que o conhecimento racional se destina a eliminar é nada mais nada menos que a própria ciência. O que Fedro percebeu no isolamento do sei trabalho de laboratório há anos atrás é percebido agora em todas as partes do mundo tecnológico. Anticiência produzida cientificamente. Um verdadeiro caos. [...]
Seu fracasso precoce o havia redimido de qualquer obrigação de pensar de acordo com qualquer linha institucionalizada e seus pensamentos já haviam alcançado um grau de independência que poucas pessoas atingem. Ele sentia que instituições como a escola, a igreja, o governo e organizações políticas de toda espécie tendiam a dirigir o pensamento para fins, em vez de para a verdade, para a perpetuação de suas próprias funções e para o controle dos indivíduos subordinados a essas funções.
[...]
(do livro "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas", de Robert M. Pirsig. 3ª Edição. Paz e Terra. 1984.)
AMNESIAC
Amnesia. Ludmilda, 2005.
Lembro-me de um tempo em que eu “queria tantas coisas da vida”! Estar vivo significava muito mais do que apenas respirar...
Outrora, quis tão “pouco”! Primeira audição do Ok Computer, do Radiohead, n‘algum momento dos vinte anos arranhado de acordes, bastou para que tocar guitarra razoavelmente bem, se tornasse tudo de que eu carecia para morrer feliz...
Hoje... hum, bem... que dia é hoje?
02/04/2011
29/03/2011
Redescobrindo II
[...]
Naquela noite eu disse a Chris que Fedro passara a vida inteira perseguindo um fantasma. É verdade. Era o fantasma inerente à tecnologia, a toda a ciência moderna, a todo o pensamento filosófico. O fantasma da própria racionalidade. Contei a Chris que ele tinha encontrado o fantasma e que o havia destruído. Creio que, num sentido figurado, isso é verdade. O que desejo revelar, à medida que prosseguimos, são algumas das coisas que ele descobriu. Agora os tempos são outros, e pode ser que alguém encontre nestas ideias alguma validade. Naquela época, ninguém via o fantasma perseguido por Fedro, mas creio que hoje cada vez mais pessoas o veem ou entreveem nos maus momentos, um fantasma que se denomina racionalidade, mas cuja aparência é de incoerência e falta de significado, fazendo com que a mais normal das ações cotidianas pareça meio despropositada, devido à sua total irrelevância em relação ao restante das coisas. Esse é o fantasma dos pressupostos normais de cada dia, que declaram que o objetivo final da vida, que é sobreviver, não pode ser alcançado, mas continua a ser o objetivo final, de qualquer maneira, e assim os grandes homens continuam a curar as doenças para que as pessoas possam viver por mais tempo. Só os loucos questionam isso. A gente vive mais para poder viver mais ainda. Não há outro objetivo. É o que diz o fantasma.
[...]
Naquela noite eu disse a Chris que Fedro passara a vida inteira perseguindo um fantasma. É verdade. Era o fantasma inerente à tecnologia, a toda a ciência moderna, a todo o pensamento filosófico. O fantasma da própria racionalidade. Contei a Chris que ele tinha encontrado o fantasma e que o havia destruído. Creio que, num sentido figurado, isso é verdade. O que desejo revelar, à medida que prosseguimos, são algumas das coisas que ele descobriu. Agora os tempos são outros, e pode ser que alguém encontre nestas ideias alguma validade. Naquela época, ninguém via o fantasma perseguido por Fedro, mas creio que hoje cada vez mais pessoas o veem ou entreveem nos maus momentos, um fantasma que se denomina racionalidade, mas cuja aparência é de incoerência e falta de significado, fazendo com que a mais normal das ações cotidianas pareça meio despropositada, devido à sua total irrelevância em relação ao restante das coisas. Esse é o fantasma dos pressupostos normais de cada dia, que declaram que o objetivo final da vida, que é sobreviver, não pode ser alcançado, mas continua a ser o objetivo final, de qualquer maneira, e assim os grandes homens continuam a curar as doenças para que as pessoas possam viver por mais tempo. Só os loucos questionam isso. A gente vive mais para poder viver mais ainda. Não há outro objetivo. É o que diz o fantasma.
[...]
(do livro "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas", de Robert M. Pirsig. 3ª Edição. Paz e Terra. 1984.)
28/03/2011
do "Os Nomes na Máquina"
Jaci. Elizabeth Finholdt, 2009.
Jaci
Aos leitores cuja hipocondria não os induziu a uma pesquisa sobre o assunto em pauta; àqueles que não conhecem por não se dedicarem à medicina ou simplesmente não se interessarem por psicologia e/ou psiquiatria; aos amigos que não tiveram a oportunidade de participar de assembleias, palestras, enquetes a respeito do tema central das linhas abaixo subscritas, segue com singela dedicatória uma sucinta explanação.
Entende-se por Transtorno Bipolar o mal psicossomático outrora chamado de Psicose Maníaca-depressiva.
Trata-se de doença que pode acometer qualquer ser humano sem que ele sequer desconfie da enfermidade. O indivíduo que sofre de Transtorno Bipolar costuma atravessar períodos de extrema euforia. Não dorme durante noites seguidas. Percorre festas, apronta todas as presepadas possíveis, cativa os semelhantes com sua exultante, porém passageira simpatia.
A seguir, não mais que de repente, o enfermo entra num estado de profunda depressão. Não sai de casa, chora sem nenhum motivo em particular, tortura-se assistindo a uma reprise de Titanic ou Ghost. Pensa em suicídio como os políticos pensam em cifras e dígitos. Muitos bipolares chegam ao ato extremo de se matar, pois tudo se torna por demais intolerável. A simpatia do período eufórico transforma-se em irritante rabugice e as pessoas se afastam. Resta apenas a insuportável solidão.
Diante dessas breves informações, mas não querendo engrossar a fila dos hipocondríacos que tomam qualquer sentimento humano como um cárcere, rabisco a seguinte pergunta (e conto com a perspicaz ajuda dos leitores para chegar a alguma resposta): será possível que eu, Jaci Alex Max Rigoto, sofra de Transtorno Bipolar? Serei eu acometido pela citada enfermidade, porém, interagindo com o meu ser, tal doença adquiriu caracteres deveras singulares – sintomas que se diferenciam um bocado dos mal-fadados extremos do humor?
O problema é que respondo a mui semelhantes circunstâncias de distintíssimas maneiras. Não saberia explicar com todas as letras o que se passa comigo. Às vezes passo pelos acontecimentos com incrível competência. Aproveito ao máximo as situações para aprender e ensinar. Sucede uma troca para a qual a cordialidade quase sempre abre as portas.
Acredito firmemente que diálogos engrandecedores podem nascer do mais trivial cumprimento. Toda e qualquer circunstância é propícia para a troca de experiências pessoais. Sempre é possível escolher as frases mais convenientes em prol do aprendizado recíproco.
Contudo, em certas ocasiões parece que me esqueço de tudo em que acredito. Retorno à crueza dos tempos da infância, torno-me bufão, o cúmulo da irônica grosseria. Repito que perante a mesma deixa sou capaz de responder com teores completamente distintos, opostos, paradoxais. Resposta tipicamente bipolar.
A adversidade de minhas intervenções (ou seria melhor dizer bipolaridade?) se manifesta maiormente, quando o assunto discutido entre amigos envolve temas de interesse geral. Então vacilo entre a brandura didática e a explosão de ódio.
Às vezes os pensamentos que passam pela minha cabeça são como o vento forte a entoar sua amena canção. Tais pensamentos parecem querer me levar como o vento parece querer. Mergulho na sensação de estar voando suavemente para bem longe, e já posso vislumbrar belíssimas e inusitadas paisagens, que me esperam e anseiam.
A branda conjuntura acima exposta faz com que as palavras fluam por meus lábios com natural cordialidade. Elas contribuem para a relevância do diálogo e conquistam o respeito e admiração dos ouvintes.
Caso o assunto em debate, por exemplo, seja a crescente violência e criminalidade no mundo moderno, explico habilmente que de nada adianta se concentrar apenas em combater o crime em si. Melhor seria lidar com as causas que levam as pessoas a praticá-lo. Senão corremos o risco de um dia o número de indivíduos condenados e encarcerados vir a ser maior do que o dígito a apontar a população a caminhar por aí.
Obviamente é o momento em que sempre surge alguém para inserir certos conceitos retrógrados. Pena de morte ou coisas desse tipo. Ainda assim, no entanto, o meu rompante de cordial retórica volta à carga. Pacientemente demonstro que o líquido aplicado na veia do condenado, a eletricidade descarregada em seu corpo, qualquer elemento que venha a compor a mórbida encenação, são patrocinados pelos impostos que a população é obrigada a pagar. Completo o raciocínio dizendo com toda a calma que quem paga para matar é tão assassino quanto o carrasco que puxa o gatilho.
Outras vezes, no entanto, quando o limite entre os “extremos bipolares” é rompido, o ímpeto ao sarcasmo se apossa de minhas ideias e reações. Habilidade, paciência, calma..., parecem não fazer sentido. Então os pensamentos não são como o vento forte entoando amena canção. São como um território há vários meses castigado por seca sem precedentes.
Nenhuma nuvem conseguira romper os céus cada vez mais empoeirados. Acumulara-se fumaça de máquinas, chaminés, queimadas. O ar pesado irritara a garganta, sufocara os pulmões, derramara-se nas veias e apossara-se do coração.
Coração poluído, cansado, combalido. Sua verdadeira natureza não é a ferrugem. Talvez amor seja a palavra mais apropriada. Amor em essência e não o produto que se vende nos programas e anúncios da TV. Amor verdadeiro e fluído e onipresente, que diz respeito diretamente à compreensão.
Subitamente essa natureza do coração é subjugada sob camadas espessas. Coração é livre mas se sente preso. Parece querer parar de bater. Deseja apenas inexistir. Pede socorro em silêncio e por fim pulsa revolta. Impulsiona o meu lado obscuro. Qualquer estalar de dedos é o suficiente para que dê vazão a respostas das quais ninguém sentiria orgulho.
“Pena de morte como nós a conhecemos? Você tem muito pouca imaginação! Use a inteligência! Cadeira elétrica, injeção letal, pelotão de fuzilamento, forca, câmara de gás? Hoje em dia os criminosos não temem esse tipo de punição. Muitos deles se deparam com circunstâncias bem mais chocantes antes mesmo do café da manhã. Estamos mais do que acostumados com a morte alheia. Ela não nos importa ou diverte mais. Não há temor ou beleza! Precisamos de algum requinte que a caracterize, senão não lhe damos atenção. Precisamos inovar no “quesito” execução! Sejamos criativos! Vamos inovar instituindo o esquartejamento como método! Começaremos por arrancar as unhas e decepar os dedos dos condenados. Usaremos soluções químicas que mantenham os bandidos acordados durante as torturas com ferro em brasa. O criminoso tem que estar desperto e olhando em nossos olhos enquanto estivermos extraindo os seus dentes com o alicate. Desperto quando rasgarmos as suas orelhas. Acordado enquanto dilaceramos o pênis, os testículos, os seios, o clitóris... Acabaremos com a criminalidade despedaçando marginais e a sociedade não será obrigada nem ao menos a se preocupar com os despojos dos infelizes. A porcaria toda não compartilhará espaço com os defuntos dos cidadãos de bem. Consumiremos os pedacinhos com a colaboração tecnológica dos melhores cientistas e inventores. Ou então podemos contratar o apoio dos maiores nutricionistas do mundo. Cozinharemos os restos dos criminosos no feijão e cobraremos caríssimo pelo prato! Ou talvez fosse melhor darmos uma de filantropos a fim de acabar com a fome do mundo! Feijão com miúdos... Ensopado de carne humana... Hum!, que delícia!”
O espanto e o silêncio em que os ouvintes são imersos – mergulho vertiginoso e sem retorno incólume numa profundidade que aumentava conforme se dava o suceder das minhas palavras; e que, no exato instante da conclusão das ditas ironias, atingira o âmago de um negro mar de sensações inéditas e paradoxais – sempre me impõem a dúvida se eu não sofro mesmo de Transtorno Bipolar.
Sei que pessoas diferentes exigem respostas diferentes sobre a mesma verdade. Sei que palavras macias não convencem quem não conhece a suavidade. Sei que é inútil mostrar belas paisagens a quem tem os olhos vendados. Contudo, eu gostaria de ser mais constante. Devo mesmo sofrer de um distúrbio qualquer.
Talvez eu devesse me conformar com a enfermidade e procurar tratamento médico. Conformar-me com a multidão sonâmbula que se vê por aí. Conformar-me com as passageiras, porém persistentes limitações dos seres humanos. Conformar-me com a inércia e hipocrisia generalizada. Conformar-me com a verdade sobre o falho caráter humano. Conformar-me com o comodismo e a passiva burrice. Conformar-se com...
(texto e ilustração que o segue do livro de contos de minha autoria intitulado "Os Nomes na Máquina". Editoras Hemisfério Sul e Canto Escuro. 2009.)
25/03/2011
Redescobrindo I
[...] John concorda com um gesto de cabeça, e eu prossigo.
– Na minha opinião, o homem de hoje não é intelectualmente superior ao antigo. Os quocientes de inteligência não mudaram tanto assim. Aqueles índios e as pessoas da Idade Média eram tão inteligentes como nós, só que viviam num contexto completamente diverso do nosso. Nesse contexto intelectual, os fantasmas e os espíritos são tão plausíveis quanto os átomos, as partículas, os fótons e os quanta são para o homem de hoje. Nesse sentido, eu acredito em fantasmas. O homem de hoje também tem os seus fantasmas e espíritos, não é?
– E quais são?
– Bom, as leis da física e da lógica... Os sistemas numéricos... O princípio de substituição algébrica. São os nossos fantasmas. Só que a gente tem uma fé tão grande neles, que eles parecem reais.
– Para mim, eles são bem reais – contesta John.
– Não estou entendendo nada – reclama Chris.
– Pois bem. Por exemplo, parece perfeitamente natural pressupor que a gravidade e a lei da gravidade existiam antes que Isaac Newton as descobrisse. Pareceria loucura pensar que até o século XVII não existiria gravidade.
– Claro!
– Então, qual a origem dessa lei? Teria ela sempre existido?
John franze o cenho, imaginando onde quero chegar.
– O que tenho em mente – digo eu – é a ideia de que antes que a Terra se formasse, antes que o sol e as estrelas surgissem, antes que qualquer outra coisa surgisse, a lei da gravidade já existia.
– É óbvio.
– Mesmo assim, parada ali, sem massa nem energia próprias, sem estar na cabeça de ninguém, porque ninguém existia, nem situada no espaço, porque também não havia espaço, parada ali no nada, ela ainda existia?
Agora John já não tem mais tanta certeza.
– Se a lei da gravidade já existisse, eu francamente não saberia quais as condições que as coisas deveriam atender para não existirem. Parece-me que a lei da gravidade passou por todos os testes possíveis de inexistência. Não se pode imaginar sequer uma propriedade de inexistência que não se aplique à lei da gravidade. Nem tampouco uma propriedade de existência que se aplique a ela. Ainda assim, todo mundo acha natural acreditar que ela já existia.
– É, acho que tenho de pensar melhor sobre o assunto – reconhece John.
– Bom, calculo que se você pensar bastante, depois de dar umas quinhentas mil voltas vai chegar a uma única conclusão possível, inteligente e racional: a lei da gravidade, e até mesmo a própria gravidade não existiam antes de Isaac Newton. Não existe conclusão mais coerente. E isso quer dizer – prossigo, antes que ele me interrompa – isso quer dizer que a lei da gravidade existe apenas nas nossas cabeças! É um fantasma! Ficamos derrubando os fantasmas dos outros, dando uma de arrogantes e presunçosos, mas somos tão ignorantes, primitivos e supersticiosos quanto eles.
– Então, por que é que todo mundo acredita na lei da gravidade?
– Hipnose em massa. Disfarçada sob uma forma bastante ortodoxa, chamada “educação!”.
– Quer dizer que você acha que o professor hipnotiza as crianças para elas acreditarem na lei da gravidade?
– Claro.
– Mas isso é ridículo.
– Já ouviu falar na importância do contato visual em sala de aula? Qualquer educador enfatiza isso, mas ninguém explica o porquê dessa importância.
John balança a cabeça e me serve mais uísque. Depois cobre a boca com uma das mãos, dirigindo a Sylvia um aparte irônico:
– Puxa, ele parecia tão normal o tempo todo...
[...]
(do livro "Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas", de Robert M. Pirsig. Paz e Terra. 3ª Edição. 1984.)
29/01/2011
24/01/2011
O Poeta
Sou um estrangeiro, e há na vida do estrangeiro uma solidão pesada e um isolamento doloroso. Sou assim levado a pensar sempre numa pátria encantada que não conheço, e a sonhar com os sortilégios de uma terra longínqua que nunca visitei.
Sou um estrangeiro para minha alma. Quando minha língua fala, meu ouvido estranha-lhe a voz. Quando meu Eu interior ri ou chora, ou se entusiasma, ou treme, meu outro Eu estranha o que ouve e vê, e minha alma interroga minha alma. Mas permaneço desconhecido e oculto, velado pelo nevoeiro, envolto no silêncio.
Sou um estrangeiro para o meu corpo. Todas as vezes que me olho num espelho, vejo no meu rosto algo que minha alma não sente, e percebo nos meus olhos algo que minhas profundezas não reconhecem.
Quando caminho nas ruas da cidade, os meninos me seguem gritando: “Eis o cego, demos-lhe um cajado que o ajude.” Fujo deles. Mas encontro outro grupo de moças que me seguram pelas abas da roupa, dizendo: “É surdo como a pedra. Enchamos seus ouvidos com canções de amor e desejo.” Deixo-as correndo. Depois, encontro um grupo de homens que me cercam, dizendo: “É mudo como um túmulo, vamos endireitar-lhe a língua.” Fujo deles com medo. E encontro um grupo de anciãos que apontam para mim com dedos trêmulos, dizendo: “É um louco que perdeu a razão ao frequentar as fadas e os feiticeiros.”
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e já percorri o mundo do Oriente ao Ocidente sem encontrar minha terra natal, nem quem me conheça ou se lembre de mim.
Acordo pela manhã, e acho-me prisioneiro num antro escuro, frequentado por cobras e insetos. Se sair à luz, a sombra de meu corpo me segue, e as sombras de minha alma me precedem, levando-me aonde não sei, oferecendo-me coisas de que não preciso, procurando algo que não entendo. E quando chega a noite, volto para a casa e deito-me numa cama feita de plumas de avestruz e de espinhos dos campos.
Ideias estranhas atormentam minha mente, e inclinações diversas, perturbadoras, alegres, dolorosas, agradáveis. À meia-noite, assaltam-me fantasmas de tempos idos. E almas de nações esquecidas me fitam. Interrogo-as, recebendo por toda resposta um sorriso. Quando procuro segurá-las, fogem de mim e desvanecem-se como fumaça.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um estrangeiro e não há no mundo quem conheça uma única palavra do idioma de minha alma...
Caminho na selva inabitada e vejo os rios correrem e subirem do fundo dos vales ao cume das montanhas. E vejo as árvores desnudas se cobrirem de folhas num só minuto. Depois, suas ramas caem no chão e se transformam em cobras pintalgadas.
E as aves do céu voam, pousam, cantam, gorjeiam e depois param, abrem as asas e viram mulheres nuas, de cabelos soltos e pescoços esticados. E olham para mim com paixão e sorriem com sensualidade. E estendem suas mãos brancas e perfumadas. Mas, de repente, estremecem e somem como nuvens, deixando o eco de risos irônicos.
Sou um estrangeiro neste mundo.
Sou um poeta que põe em prosa o que a vida põe em versos, e em versos o que a vida põe em prosa. Por isto, permanecerei um estrangeiro até que a morte me rapte e me leve para minha pátria."
Kalil Gibran.
04/01/2011
09/12/2010
27/11/2010
Deturpado Silêncio (II)
“[...] Castro morrera pensando no passado com uma incrível lucidez. Lembrou-se nitidamente desde a sua mais tenra infância, a adolescência, a fase adulta, a velhice, até os instantes imemoriais... “Será que todos os seres humanos um dia se lembrarão com saudades de cada momento vivido?”, perguntou Castro. Ele concluiu que todos os momentos vividos eram válidos e mereciam saudades.
Castro lembrou-se dos avós, com os quais só partilhara momentos através das histórias moldadas pela serena voz da mãe, ou mesmo pela indefinível voz do pai. Ele pensou nos próprios pai e mãe e se surpreendeu agradecendo. Fora muito bom viver ao lado deles. Também teria sido muito bom ter tido primos, tios e tias, outros parentes, mais amigos; irmãos para implicar, brigar, brincar, sorrir, amar, viver...
Castro sentiu saudades da casa cheia de gente. Sentiu saudades dos móveis cheios de objetos espalhados. Coisas fora do lugar, coisas fora do eixo. Cadeiras ocupadas, sofás ocupados, camas ocupadas. Saudades até mesmo dos últimos anos em que a solidão se impregnara do barulho da bengala a auxiliar-lhe os passos tocando vacilante a madeira do assoalho.
Eram os defeitos e virtudes das pessoas que movimentavam a vida. E todos os momentos movimentados valiam a pena. Todas as pessoas encheram a sua vida de sentido. Ele próprio, com o seu jeito todo particular de movimentar a vida, o seu mundo particular, era uma réplica em miniatura do que se passava pelo planeta. Uma só família espalhada pela Terra. Uma só família vivendo os mesmos extremos. Tantos e tão semelhantes extremos, cada um valendo a pena, cada um passivo de saudades.
Era muito fácil amar todas as pessoas. Castro se perguntava como fora possível não perceber antes! Ele sabia que estava morrendo e desejava voltar para dizer ao mundo. Talvez um retorno fosse tão possível quanto era desejável. Era até mesmo lógico! Seria bom ter infinitas oportunidades de dizer aos irmãos em cada canto do planeta as coisas boas que se descobre subitamente. E dizê-las nas amenas circunstâncias de um monótono “paraíso” no mínimo seria menos meritório.
Muita gente acreditava na necessidade do desejável retorno. E se ele realmente existisse, corroborando a beleza do movimento e contrariando o tédio do repouso eterno, Castro quereria poder voltar tendo os mesmos pais, parentes, amigos; mesma humanidade. Por mais que soubesse que os momentos seriam muito ou um pouco diferentes, ele queria todos de volta para si, pois qualquer momento a se guardar na memória um dia será lembrado com saudades.
Era muito fácil amar as pessoas e Castro desejava poder regressar, a fim de lutar por elas e dizer a quem tem tempo: “Lute!”. Ele queria lutar para que apenas os defeitos e virtudes movimentassem a vida e nenhuma outra circunstância ou força delimitasse e coagisse o movimento. Nenhuma outra circunstância limitadora e condicionante.
Castro morreu com a mente cheia de pensamentos engrandecedores. Pois todas as lembranças são boas porque todas as conclusões a que se chega através delas são úteis. Tanto o suor quanto o orvalho servem para regar e dar vida às flores. Emergencial estava com os olhos e o rosto úmidos de lágrimas não por estar morrendo sufocado. Eram lágrimas que saíam naturalmente agradecidas.
Elas agradeciam ao mundo por tantas oportunidades. Agradeciam às árvores, que partilharam do mesmo ar carregado dos mais diversos elementos, e possibilitaram a vida. Aos animais que se sacrificaram para doar o alimento e de várias maneiras também movimentaram a vida, aprendendo o seu aprendizado. Ao sol que iluminara o caminho e secara o rosto. Ao vento que desmanchara os cabelos, aliviara o peso de uma caminhada, enchera os olhos de poeira...
Emergencial estava agradecido a tudo e a todos. Deles dependiam as circunstâncias perfeitas para que ele chegasse a qualquer conclusão. Estava agradecido porque todos tinham a mesma capacidade de concluir, compreender, amar. A vida era realmente bela e Castro a amava integralmente. Amava a tudo e a todos e morreu com o coração tranqüilo, embora cheio de saudades. [...]”
Castro lembrou-se dos avós, com os quais só partilhara momentos através das histórias moldadas pela serena voz da mãe, ou mesmo pela indefinível voz do pai. Ele pensou nos próprios pai e mãe e se surpreendeu agradecendo. Fora muito bom viver ao lado deles. Também teria sido muito bom ter tido primos, tios e tias, outros parentes, mais amigos; irmãos para implicar, brigar, brincar, sorrir, amar, viver...
Castro sentiu saudades da casa cheia de gente. Sentiu saudades dos móveis cheios de objetos espalhados. Coisas fora do lugar, coisas fora do eixo. Cadeiras ocupadas, sofás ocupados, camas ocupadas. Saudades até mesmo dos últimos anos em que a solidão se impregnara do barulho da bengala a auxiliar-lhe os passos tocando vacilante a madeira do assoalho.
Eram os defeitos e virtudes das pessoas que movimentavam a vida. E todos os momentos movimentados valiam a pena. Todas as pessoas encheram a sua vida de sentido. Ele próprio, com o seu jeito todo particular de movimentar a vida, o seu mundo particular, era uma réplica em miniatura do que se passava pelo planeta. Uma só família espalhada pela Terra. Uma só família vivendo os mesmos extremos. Tantos e tão semelhantes extremos, cada um valendo a pena, cada um passivo de saudades.
Era muito fácil amar todas as pessoas. Castro se perguntava como fora possível não perceber antes! Ele sabia que estava morrendo e desejava voltar para dizer ao mundo. Talvez um retorno fosse tão possível quanto era desejável. Era até mesmo lógico! Seria bom ter infinitas oportunidades de dizer aos irmãos em cada canto do planeta as coisas boas que se descobre subitamente. E dizê-las nas amenas circunstâncias de um monótono “paraíso” no mínimo seria menos meritório.
Muita gente acreditava na necessidade do desejável retorno. E se ele realmente existisse, corroborando a beleza do movimento e contrariando o tédio do repouso eterno, Castro quereria poder voltar tendo os mesmos pais, parentes, amigos; mesma humanidade. Por mais que soubesse que os momentos seriam muito ou um pouco diferentes, ele queria todos de volta para si, pois qualquer momento a se guardar na memória um dia será lembrado com saudades.
Era muito fácil amar as pessoas e Castro desejava poder regressar, a fim de lutar por elas e dizer a quem tem tempo: “Lute!”. Ele queria lutar para que apenas os defeitos e virtudes movimentassem a vida e nenhuma outra circunstância ou força delimitasse e coagisse o movimento. Nenhuma outra circunstância limitadora e condicionante.
Castro morreu com a mente cheia de pensamentos engrandecedores. Pois todas as lembranças são boas porque todas as conclusões a que se chega através delas são úteis. Tanto o suor quanto o orvalho servem para regar e dar vida às flores. Emergencial estava com os olhos e o rosto úmidos de lágrimas não por estar morrendo sufocado. Eram lágrimas que saíam naturalmente agradecidas.
Elas agradeciam ao mundo por tantas oportunidades. Agradeciam às árvores, que partilharam do mesmo ar carregado dos mais diversos elementos, e possibilitaram a vida. Aos animais que se sacrificaram para doar o alimento e de várias maneiras também movimentaram a vida, aprendendo o seu aprendizado. Ao sol que iluminara o caminho e secara o rosto. Ao vento que desmanchara os cabelos, aliviara o peso de uma caminhada, enchera os olhos de poeira...
Emergencial estava agradecido a tudo e a todos. Deles dependiam as circunstâncias perfeitas para que ele chegasse a qualquer conclusão. Estava agradecido porque todos tinham a mesma capacidade de concluir, compreender, amar. A vida era realmente bela e Castro a amava integralmente. Amava a tudo e a todos e morreu com o coração tranqüilo, embora cheio de saudades. [...]”
(do livro de minha autoria "Elo, Entrelinhas & Alucinações".)
26/11/2010
Deturpado Silêncio
"Breve a passagem por este mundo belo! Leve suspiro, súbita lufada de ar, pesado sonho. Tantos passaram sem que as minhas vistas alcançassem! Tantos outros desapareceram sob o meu mareado olhar! Restam apenas as saudades, atemporais. Restam apenas essas lágrimas incômodas a alimentarem esperança fugaz (?) - nenhum vínculo há que tempo ou espaço possam quebrar. Saudades e esperanças de que lógica estatísticas filosofias vãs fanatismo banal, sejam apenas como poeira persistente a lapidar a alma. E, lá fora, ah!, aqueles que um dia em meu coração fizeram morada, e espalharam profundas raízes, não se percam de mim em infinda escuridão."
para a 'miga Katiê.
23/11/2010
Palavras Quem Quer Ouvi-las? (VIII)
o problema, problema
não são as lâminas
cravadas no peito
a cada mentira
a cada fuga
deliberadamente
sem razão
o problema, problema
é o amor
o amor
discretamente
a escapar pelas
feridas.
12/11/2010
Palavras Quem Quer Ouvi-las? (VII)
Phone Mask, Nick Keppler.
Atenda ao telefone!
Atendo ao anseio...
Atenda à porta!
Atendo ao desespero...
Atenda ao monitor!
Atendo à desconfiança...
Abraço a solidão
Embarco sem medo
Encontro vil atemporal
Caminho perdido longe
Estrada coberta nuvens
Memória decreta nunca mais
Outra vez.
Atendo ao anseio...
Atenda à porta!
Atendo ao desespero...
Atenda ao monitor!
Atendo à desconfiança...
Abraço a solidão
Embarco sem medo
Encontro vil atemporal
Caminho perdido longe
Estrada coberta nuvens
Memória decreta nunca mais
Outra vez.
25/10/2010
Palavras Quem Quer Ouvi-las? (VI)
Brenda York, Girl and bird.
O estranho mundo das floriculturas
(Victor Hugo)
[...] Lembrei da floricultura do velho mercado. Era algo profissional, com flores espalhadas por corredores, empilhadas, atulhadas umas aos lados das outras. Aquela floricultura obviamente teria o girassol. Provavelmente todas as flores desejavam estar naquela floricultura. Ser vendida ali com toda a certeza lhes traria um destino proveitoso: um amor conquistado, um feliz aniversário realmente feliz, uma condolência honrosa. O girassol estaria ali para atender meus intentos.
E estava. Eram logo cinco girassois disputando minha atenção. Escolhi o mais vistoso, o mais vaidoso, aquele que mais agradaria a garota. Mandei entregar. Paguei.
Ao meu lado, enquanto guardava o troco, notei mais um jovem rapaz. Escrevia uma carta. Provavelmente uma carta de amor. Ele me olhou de esguelha e sorriu.
“O grande Victor Hugo. Há tempos queremos conhecê-lo…”, disse num tom cordial.
Suspeitei.
“Como você sabe meu nome?”.
“Sabemos tudo sobre você. Onde mora, com quem fala, para quem escreve suas cartas de amor”.
“Quem é você?!”, indaguei já nervoso.
“Vamos lá fora”.
Puxou-me pelo braço, percorrendo os corredores tortos daquele mercado velho, onde fogões idosos se empilhavam sobre mercadorias tão velhas quanto, onde condimentos, bebidas e artigos de decoração estavam lado a lado, disputando atenção dos bolsos com dinheiro, onde caixas velhas serviam de bancos e mesas, onde o café era de um negror já esquecido. Puxou-me pela história.
Chegamos do lado de fora, onde a claridade ofuscou minhas retinas.
Quando me acostumei à luz, percebi que ao meu redor estavam os rapazes das floriculturas pelas quais tinha procurado frustradamente o girassol. Além de mais dez outros homens.
“Oh que bom, ele está aqui!”, comentaram entre si.
“Expliquem o que é isso, por favor”, exigi.
“Victor, somos um grupo muito restrito. Temos o observado e chegamos à conclusão de que talvez você queira se juntar a nós”.
“E do que se trata?”, perguntei curioso.
“Todos nós nos conhecemos em floriculturas, ou cafeterias, ou parques, ou joalherias. Em algum momento da vida, nos conhecemos enquanto gostávamos de alguém, nos reconhecemos pois éramos pessoas apaixonadas, em busca de uma pessoa. Nos reunimos para trocar experiências, dicas, para conhecer novas paixões. Não temos a hipocrisia de afirmar que vivemos por sucesso profissional ou por ideologias. Vivemos apenas pela paixão”, explicou um deles.
E prosseguiram:
“O C. aqui, presenteava suas amantes com colares lindíssimos, nos explicou tudo sobre jóias e o que elas mais adoram. O F. era um exímio conquistador, de uma cafeteria ou uma doceria, já conseguia emendar um motel, vai aprender muito com ele. O T. ali escreveu poemas lindíssimos sob a sombra de ipês, e suas mulheres se derretiam com suas doces palavras”. [...]
E estava. Eram logo cinco girassois disputando minha atenção. Escolhi o mais vistoso, o mais vaidoso, aquele que mais agradaria a garota. Mandei entregar. Paguei.
Ao meu lado, enquanto guardava o troco, notei mais um jovem rapaz. Escrevia uma carta. Provavelmente uma carta de amor. Ele me olhou de esguelha e sorriu.
“O grande Victor Hugo. Há tempos queremos conhecê-lo…”, disse num tom cordial.
Suspeitei.
“Como você sabe meu nome?”.
“Sabemos tudo sobre você. Onde mora, com quem fala, para quem escreve suas cartas de amor”.
“Quem é você?!”, indaguei já nervoso.
“Vamos lá fora”.
Puxou-me pelo braço, percorrendo os corredores tortos daquele mercado velho, onde fogões idosos se empilhavam sobre mercadorias tão velhas quanto, onde condimentos, bebidas e artigos de decoração estavam lado a lado, disputando atenção dos bolsos com dinheiro, onde caixas velhas serviam de bancos e mesas, onde o café era de um negror já esquecido. Puxou-me pela história.
Chegamos do lado de fora, onde a claridade ofuscou minhas retinas.
Quando me acostumei à luz, percebi que ao meu redor estavam os rapazes das floriculturas pelas quais tinha procurado frustradamente o girassol. Além de mais dez outros homens.
“Oh que bom, ele está aqui!”, comentaram entre si.
“Expliquem o que é isso, por favor”, exigi.
“Victor, somos um grupo muito restrito. Temos o observado e chegamos à conclusão de que talvez você queira se juntar a nós”.
“E do que se trata?”, perguntei curioso.
“Todos nós nos conhecemos em floriculturas, ou cafeterias, ou parques, ou joalherias. Em algum momento da vida, nos conhecemos enquanto gostávamos de alguém, nos reconhecemos pois éramos pessoas apaixonadas, em busca de uma pessoa. Nos reunimos para trocar experiências, dicas, para conhecer novas paixões. Não temos a hipocrisia de afirmar que vivemos por sucesso profissional ou por ideologias. Vivemos apenas pela paixão”, explicou um deles.
E prosseguiram:
“O C. aqui, presenteava suas amantes com colares lindíssimos, nos explicou tudo sobre jóias e o que elas mais adoram. O F. era um exímio conquistador, de uma cafeteria ou uma doceria, já conseguia emendar um motel, vai aprender muito com ele. O T. ali escreveu poemas lindíssimos sob a sombra de ipês, e suas mulheres se derretiam com suas doces palavras”. [...]
O texto pode ser lido na íntegra clicando aqui no endereço do blog do Victor Hugo.
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